Há vários anos que Portugal figura entre os destinos mais seguros do mundo para viajantes LGBT+. Para quem gere hotéis, porém, a pergunta útil não é “somos um destino acolhedor?”, mas “que peso tem este segmento no meu negócio e o que posso fazer a esse respeito?”
A resposta honesta é que não existe uma estatística oficial sobre quantos hóspedes LGBT+ ficam nos hotéis portugueses. O Instituto Nacional de Estatística (INE) não recolhe esses dados, e ainda bem. O que existe são estimativas de mercado, rankings internacionais e alguns estudos académicos portugueses. Em conjunto, permitem traçar um retrato razoável, desde que sejam lidos com cuidado.
Para dar uma ideia da escala: em 2025, o alojamento turístico em Portugal registou 32,5 milhões de hóspedes e 82,1 milhões de dormidas, segundo dados preliminares do INE, com os hóspedes internacionais a representarem cerca de 69% das dormidas. O balanço de 2025 publicado pelo Turismo de Portugal apresenta 7.133,2 milhões de euros de proveitos totais do alojamento. Mesmo uma pequena parcela deste volume importa.
Quanto vale o mercado de viagens LGBT+
A estimativa mais citada vem da consultora Out Now: em 2018, a despesa anual em viagens e turismo das pessoas LGBT+ ultrapassou 218 mil milhões de dólares, incluindo alojamento, restauração e visitas turísticas. Os maiores mercados emissores eram os EUA, o Brasil, o Japão, a Alemanha e o Reino Unido.
Vale a pena olhar para os mercados que mais importam para Portugal. Segundo a mesma fonte, os residentes LGBT+ destes países gastavam, por ano:
| Mercado emissor | Despesa em viagens LGBT+, 2018 (mil milhões de US$) |
|---|---|
| EUA | 63,1 |
| Brasil | 26,8 |
| Alemanha | 13,8 |
| Reino Unido | 11,7 |
| França | 11,4 |
| Espanha | 7,0 |
Fonte: Out Now / LGBT2030, via LaingBuisson
Três destes seis são também mercados importantes para o turismo português: em 2025, o Reino Unido foi o principal mercado emissor, com 17,7% das dormidas de não residentes.
Duas ressalvas. Primeiro, estes números têm quase uma década e foram produzidos por uma consultora especializada no segmento, através de painéis online, e não por um organismo de estatística. Segundo, a ideia de que os turistas LGBT+ gastam sempre mais do que a média não está estabelecida: um estudo de 2024 sobre Palma de Maiorca encontrou até uma despesa ligeiramente inferior à dos restantes turistas, embora com uma amostra pequena (150 respostas).
Portugal no mapa LGBT+
Nos rankings que os viajantes LGBT+ efetivamente consultam, Portugal continua bem posicionado, mas com sinais de recuo que merecem atenção.
| Indicador | O que mede | Portugal |
|---|---|---|
| Spartacus Gay Travel Index 2026 | Segurança e acolhimento dos viajantes, 217 países | 4.º lugar ex aequo (com Bélgica, Canadá e Alemanha) |
| Spartacus Gay Travel Index 2025 | O mesmo, 215 países | 1.º lugar ex aequo, pontuação máxima |
| ILGA Europe Rainbow Map 2026 | Leis e políticas LGBTI, 49 países europeus | 12.º, 67% |
O Rainbow Map mostra uma tendência descendente: Portugal foi 10.º em 2024, 11.º em 2025 e 12.º em 2026, com a ILGA Europe a assinalar propostas legislativas recentes sobre identidade de género como motivo de preocupação. Para os viajantes, o índice Spartacus tem maior relevância por ter sido concebido para quem viaja e ser divulgado em parceria com a Booking.com.
Do lado da procura, os números específicos de Portugal vêm sobretudo da Variações, a Associação de Comércio e Turismo LGBTI+ de Portugal. A associação estimou mais de dois milhões de visitantes LGBTI por ano, e a feira BTL apresentou o segmento como representando 8% da despesa turística. São estimativas de uma organização que promove o segmento, sem metodologia detalhada publicada; servem como ordem de grandeza, não como dados oficiais.
O próprio Turismo de Portugal adotou este objetivo na Estratégia Turismo 2027, que inclui promover Portugal como destino LGBTI. E Lisboa recebeu o EuroPride 2025, de 14 a 22 de junho, pela primeira vez em Portugal. Até agora, não encontrei um relatório público sobre o número de visitantes ou o impacto económico do evento.
Há uma nuance geográfica importante. Segundo a própria Variações, fora de Lisboa, Portugal ainda não é visto como um destino de referência para este segmento. Um estudo sobre o Norte de Portugal concluiu que a comunidade local é vista como hospitaleira, mas que persistem algumas reservas e discriminação em relação à orientação sexual e à identidade de género.
Quem é este hóspede e o que muda no revenue management
O dado mais sólido não é a despesa: é a segurança. Num inquérito de 2024 da Booking.com, 59% dos viajantes LGBT+ disseram ter sofrido discriminação durante as viagens, valor que sobe para 63% entre quem assume abertamente a sua identidade. No inquérito de 2021, 65% disseram ter de ponderar a sua segurança ao escolher um destino. A escolha começa, por isso, no destino e só depois chega ao hotel; é aí que a posição de Portugal nos rankings favorece quem já está cá.
Quanto à frequência de viagens, o estudo anual da Community Marketing & Insights registou uma média de 3,1 viagens de lazer e 1,5 viagens de negócios por ano entre os participantes LGBT+ nos EUA. Em Lisboa, um estudo exploratório da Universidade de Évora descreveu os turistas gays inquiridos como pessoas com elevada escolaridade, rendimentos altos e comportamentos de consumo específicos. Ambos recorrem a amostras recrutadas através de canais da comunidade, o que tende a sobrerrepresentar perfis mais ativos e com maior poder de compra.
Na prática do revenue management, há algumas leituras que me parecem razoáveis, mais como hipóteses a testar com os dados do próprio hotel do que como regras:
- Eventos como picos de procura previsíveis. Arraial Lisboa Pride, Porto Pride, Queer Lisboa ou edições como o EuroPride merecem um lugar no calendário de eventos com a mesma disciplina de um congresso: pricing, restrições de estadia mínima e acompanhamento do pickup.
- Sinais de procura já presentes nos dados. Acompanhe volumes agregados de reservas em torno de eventos públicos e avalie a experiência dos hóspedes através de feedback voluntário que respeite a privacidade. Não infira nem registe a orientação sexual individual de um hóspede a partir da sua reserva, preferências de quarto, acompanhantes ou datas de viagem.
- Visibilidade nos canais. A distribuição importa: a etiqueta Travel Proud aparece na própria página do alojamento na Booking.com e permite filtrar alojamentos participantes. Indica participação no programa, não uma garantia independente de segurança.
- Menos sazonalidade do que se supõe? Alguns eventos LGBT+ acontecem fora da época alta tradicional; vale a pena consultar o calendário de cada região antes de assumir que o segmento apenas reforça o verão.
O que um hotel pode fazer, com credibilidade
O responsável da Variações resumiu o desafio atual como sendo desenvolver a oferta, que considera ainda escassa para este mercado. A procura parece existir; o que muitas vezes falta é o hotel deixar claro que está preparado para a acolher.
- Formar a equipa antes de comunicar. A formação Travel Proud da Booking.com é gratuita para parceiros e dá acesso à etiqueta na plataforma; em junho de 2025, o programa anunciou 100.000 alojamentos em mais de 150 países e territórios. Para hotéis que também trabalham com operadores especializados, aderir à IGLTA (International LGBTQ+ Travel Association) é outra via.
- Rever os pontos de fricção na chegada e nas reservas. Formulários que pressupõem “senhor e senhora”, perguntas sobre camas separadas ou comentários na receção são precisamente as situações desconfortáveis descritas pelos inquéritos.
- Comunicar com autenticidade, não apenas em junho. Um logótipo com as cores do Pride em junho, sem práticas que o sustentem, tende a ser visto como oportunismo. Funciona melhor mostrar o que existe: equipa formada, parcerias locais e informação útil sobre o destino.
- Ligar-se ao ecossistema local. Eventos LGBT+ regionais, associações e empresas trazem conteúdo, pacotes e credibilidade, sobretudo fora de Lisboa, onde a oferta é menos visível.
Em síntese: um segmento relevante, medido com pouca precisão
O peso do turismo LGBT+ na hotelaria portuguesa é real, mas difícil de quantificar com rigor. Os números disponíveis vêm de consultoras e associações do próprio setor, de inquéritos com participação voluntária e, em parte, de estudos com vários anos. Usados como ordem de grandeza, ajudam; citados como factos estabelecidos, induzem em erro.
O que parece mais sólido é isto: Portugal tem uma vantagem competitiva na segurança percebida, que é o primeiro filtro do viajante LGBT+; essa vantagem não está garantida, como mostra a descida no Rainbow Map; e a oferta hoteleira ainda não acompanhou a reputação do destino, sobretudo fora de Lisboa. Para um hotel, é uma oportunidade de se diferenciar a um custo relativamente baixo, desde que comece pela prática e só depois passe à comunicação.
Fontes
| Fonte | Dados utilizados | Ano dos dados |
|---|---|---|
| INE, via RTP | Hóspedes e dormidas no alojamento turístico | 2025 (preliminar) |
| Turismo de Portugal: Tourism Outlook 2025 | Proveitos totais do alojamento | 2025 |
| INE, via Postal do Algarve | Peso do Reino Unido nas dormidas de não residentes | 2025 |
| Out Now / LGBT2030, via LaingBuisson | Despesa em viagens LGBT+ global e por país | 2018 |
| Expósito Muñoz, Universitat de les Illes Balears | Despesa dos turistas LGBT+ em Palma | 2024 |
| Couple of Men: Spartacus Gay Travel Index 2026 | Posição de Portugal | 2026 |
| idealista: Gay Travel Index 2025 | Posição de Portugal | 2025 |
| ILGA Europe: Rainbow Map 2026 | Posição e pontuação de Portugal | 2026 |
| Executive Digest | Portugal no Rainbow Map, 2024 a 2026 | 2026 |
| idealista: EuroPride bid | Estimativas da Variações; Estratégia Turismo 2027 | 2019 |
| idealista: EuroPride 2025 | Datas e organização do evento | 2025 |
| idealista: interview with Variações | Escassez de oferta para o segmento | A confirmar |
| Mercado & Eventos: BTL | Peso na despesa turística; perceção fora de Lisboa | 2023 |
| Vareiro & Silva, Revista Turismo & Desenvolvimento | Atitudes da comunidade local no Norte | 2021 |
| Leitão, University of Évora | Perfil dos turistas gays em Lisboa | Sem data indicada |
| PhocusWire: Booking.com | Discriminação durante as viagens | 2024 |
| Travel Noire: Booking.com | Peso da segurança na escolha do destino | 2021 |
| The Travel Vertical: CMI | Frequência de viagens (EUA) | 2018 |
| Booking.com: Travel Proud | Alojamentos Travel Proud | 2025 |