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    O peso do turismo LGBT+ na hotelaria portuguesa

    27 out. 20267 min

    Há vários anos que Portugal figura entre os destinos mais seguros do mundo para viajantes LGBT+. Para quem gere hotéis, porém, a pergunta útil não é “somos um destino acolhedor?”, mas “que peso tem este segmento no meu negócio e o que posso fazer a esse respeito?”

    A resposta honesta é que não existe uma estatística oficial sobre quantos hóspedes LGBT+ ficam nos hotéis portugueses. O Instituto Nacional de Estatística (INE) não recolhe esses dados, e ainda bem. O que existe são estimativas de mercado, rankings internacionais e alguns estudos académicos portugueses. Em conjunto, permitem traçar um retrato razoável, desde que sejam lidos com cuidado.

    Para dar uma ideia da escala: em 2025, o alojamento turístico em Portugal registou 32,5 milhões de hóspedes e 82,1 milhões de dormidas, segundo dados preliminares do INE, com os hóspedes internacionais a representarem cerca de 69% das dormidas. O balanço de 2025 publicado pelo Turismo de Portugal apresenta 7.133,2 milhões de euros de proveitos totais do alojamento. Mesmo uma pequena parcela deste volume importa.

    Quanto vale o mercado de viagens LGBT+

    A estimativa mais citada vem da consultora Out Now: em 2018, a despesa anual em viagens e turismo das pessoas LGBT+ ultrapassou 218 mil milhões de dólares, incluindo alojamento, restauração e visitas turísticas. Os maiores mercados emissores eram os EUA, o Brasil, o Japão, a Alemanha e o Reino Unido.

    Vale a pena olhar para os mercados que mais importam para Portugal. Segundo a mesma fonte, os residentes LGBT+ destes países gastavam, por ano:

    Mercado emissorDespesa em viagens LGBT+, 2018 (mil milhões de US$)
    EUA63,1
    Brasil26,8
    Alemanha13,8
    Reino Unido11,7
    França11,4
    Espanha7,0

    Fonte: Out Now / LGBT2030, via LaingBuisson

    Três destes seis são também mercados importantes para o turismo português: em 2025, o Reino Unido foi o principal mercado emissor, com 17,7% das dormidas de não residentes.

    Duas ressalvas. Primeiro, estes números têm quase uma década e foram produzidos por uma consultora especializada no segmento, através de painéis online, e não por um organismo de estatística. Segundo, a ideia de que os turistas LGBT+ gastam sempre mais do que a média não está estabelecida: um estudo de 2024 sobre Palma de Maiorca encontrou até uma despesa ligeiramente inferior à dos restantes turistas, embora com uma amostra pequena (150 respostas).

    Portugal no mapa LGBT+

    Nos rankings que os viajantes LGBT+ efetivamente consultam, Portugal continua bem posicionado, mas com sinais de recuo que merecem atenção.

    IndicadorO que medePortugal
    Spartacus Gay Travel Index 2026Segurança e acolhimento dos viajantes, 217 países4.º lugar ex aequo (com Bélgica, Canadá e Alemanha)
    Spartacus Gay Travel Index 2025O mesmo, 215 países1.º lugar ex aequo, pontuação máxima
    ILGA Europe Rainbow Map 2026Leis e políticas LGBTI, 49 países europeus12.º, 67%

    O Rainbow Map mostra uma tendência descendente: Portugal foi 10.º em 2024, 11.º em 2025 e 12.º em 2026, com a ILGA Europe a assinalar propostas legislativas recentes sobre identidade de género como motivo de preocupação. Para os viajantes, o índice Spartacus tem maior relevância por ter sido concebido para quem viaja e ser divulgado em parceria com a Booking.com.

    Do lado da procura, os números específicos de Portugal vêm sobretudo da Variações, a Associação de Comércio e Turismo LGBTI+ de Portugal. A associação estimou mais de dois milhões de visitantes LGBTI por ano, e a feira BTL apresentou o segmento como representando 8% da despesa turística. São estimativas de uma organização que promove o segmento, sem metodologia detalhada publicada; servem como ordem de grandeza, não como dados oficiais.

    O próprio Turismo de Portugal adotou este objetivo na Estratégia Turismo 2027, que inclui promover Portugal como destino LGBTI. E Lisboa recebeu o EuroPride 2025, de 14 a 22 de junho, pela primeira vez em Portugal. Até agora, não encontrei um relatório público sobre o número de visitantes ou o impacto económico do evento.

    Há uma nuance geográfica importante. Segundo a própria Variações, fora de Lisboa, Portugal ainda não é visto como um destino de referência para este segmento. Um estudo sobre o Norte de Portugal concluiu que a comunidade local é vista como hospitaleira, mas que persistem algumas reservas e discriminação em relação à orientação sexual e à identidade de género.

    Quem é este hóspede e o que muda no revenue management

    O dado mais sólido não é a despesa: é a segurança. Num inquérito de 2024 da Booking.com, 59% dos viajantes LGBT+ disseram ter sofrido discriminação durante as viagens, valor que sobe para 63% entre quem assume abertamente a sua identidade. No inquérito de 2021, 65% disseram ter de ponderar a sua segurança ao escolher um destino. A escolha começa, por isso, no destino e só depois chega ao hotel; é aí que a posição de Portugal nos rankings favorece quem já está cá.

    Quanto à frequência de viagens, o estudo anual da Community Marketing & Insights registou uma média de 3,1 viagens de lazer e 1,5 viagens de negócios por ano entre os participantes LGBT+ nos EUA. Em Lisboa, um estudo exploratório da Universidade de Évora descreveu os turistas gays inquiridos como pessoas com elevada escolaridade, rendimentos altos e comportamentos de consumo específicos. Ambos recorrem a amostras recrutadas através de canais da comunidade, o que tende a sobrerrepresentar perfis mais ativos e com maior poder de compra.

    Na prática do revenue management, há algumas leituras que me parecem razoáveis, mais como hipóteses a testar com os dados do próprio hotel do que como regras:

    • Eventos como picos de procura previsíveis. Arraial Lisboa Pride, Porto Pride, Queer Lisboa ou edições como o EuroPride merecem um lugar no calendário de eventos com a mesma disciplina de um congresso: pricing, restrições de estadia mínima e acompanhamento do pickup.
    • Sinais de procura já presentes nos dados. Acompanhe volumes agregados de reservas em torno de eventos públicos e avalie a experiência dos hóspedes através de feedback voluntário que respeite a privacidade. Não infira nem registe a orientação sexual individual de um hóspede a partir da sua reserva, preferências de quarto, acompanhantes ou datas de viagem.
    • Visibilidade nos canais. A distribuição importa: a etiqueta Travel Proud aparece na própria página do alojamento na Booking.com e permite filtrar alojamentos participantes. Indica participação no programa, não uma garantia independente de segurança.
    • Menos sazonalidade do que se supõe? Alguns eventos LGBT+ acontecem fora da época alta tradicional; vale a pena consultar o calendário de cada região antes de assumir que o segmento apenas reforça o verão.

    O que um hotel pode fazer, com credibilidade

    O responsável da Variações resumiu o desafio atual como sendo desenvolver a oferta, que considera ainda escassa para este mercado. A procura parece existir; o que muitas vezes falta é o hotel deixar claro que está preparado para a acolher.

    1. Formar a equipa antes de comunicar. A formação Travel Proud da Booking.com é gratuita para parceiros e dá acesso à etiqueta na plataforma; em junho de 2025, o programa anunciou 100.000 alojamentos em mais de 150 países e territórios. Para hotéis que também trabalham com operadores especializados, aderir à IGLTA (International LGBTQ+ Travel Association) é outra via.
    2. Rever os pontos de fricção na chegada e nas reservas. Formulários que pressupõem “senhor e senhora”, perguntas sobre camas separadas ou comentários na receção são precisamente as situações desconfortáveis descritas pelos inquéritos.
    3. Comunicar com autenticidade, não apenas em junho. Um logótipo com as cores do Pride em junho, sem práticas que o sustentem, tende a ser visto como oportunismo. Funciona melhor mostrar o que existe: equipa formada, parcerias locais e informação útil sobre o destino.
    4. Ligar-se ao ecossistema local. Eventos LGBT+ regionais, associações e empresas trazem conteúdo, pacotes e credibilidade, sobretudo fora de Lisboa, onde a oferta é menos visível.

    Em síntese: um segmento relevante, medido com pouca precisão

    O peso do turismo LGBT+ na hotelaria portuguesa é real, mas difícil de quantificar com rigor. Os números disponíveis vêm de consultoras e associações do próprio setor, de inquéritos com participação voluntária e, em parte, de estudos com vários anos. Usados como ordem de grandeza, ajudam; citados como factos estabelecidos, induzem em erro.

    O que parece mais sólido é isto: Portugal tem uma vantagem competitiva na segurança percebida, que é o primeiro filtro do viajante LGBT+; essa vantagem não está garantida, como mostra a descida no Rainbow Map; e a oferta hoteleira ainda não acompanhou a reputação do destino, sobretudo fora de Lisboa. Para um hotel, é uma oportunidade de se diferenciar a um custo relativamente baixo, desde que comece pela prática e só depois passe à comunicação.

    Fontes

    FonteDados utilizadosAno dos dados
    INE, via RTPHóspedes e dormidas no alojamento turístico2025 (preliminar)
    Turismo de Portugal: Tourism Outlook 2025Proveitos totais do alojamento2025
    INE, via Postal do AlgarvePeso do Reino Unido nas dormidas de não residentes2025
    Out Now / LGBT2030, via LaingBuissonDespesa em viagens LGBT+ global e por país2018
    Expósito Muñoz, Universitat de les Illes BalearsDespesa dos turistas LGBT+ em Palma2024
    Couple of Men: Spartacus Gay Travel Index 2026Posição de Portugal2026
    idealista: Gay Travel Index 2025Posição de Portugal2025
    ILGA Europe: Rainbow Map 2026Posição e pontuação de Portugal2026
    Executive DigestPortugal no Rainbow Map, 2024 a 20262026
    idealista: EuroPride bidEstimativas da Variações; Estratégia Turismo 20272019
    idealista: EuroPride 2025Datas e organização do evento2025
    idealista: interview with VariaçõesEscassez de oferta para o segmentoA confirmar
    Mercado & Eventos: BTLPeso na despesa turística; perceção fora de Lisboa2023
    Vareiro & Silva, Revista Turismo & DesenvolvimentoAtitudes da comunidade local no Norte2021
    Leitão, University of ÉvoraPerfil dos turistas gays em LisboaSem data indicada
    PhocusWire: Booking.comDiscriminação durante as viagens2024
    Travel Noire: Booking.comPeso da segurança na escolha do destino2021
    The Travel Vertical: CMIFrequência de viagens (EUA)2018
    Booking.com: Travel ProudAlojamentos Travel Proud2025

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